Em um livro recente sobre escravidão, deparei-me com a definição do autor — jornalista que, na obra, assume o papel de historiador — de que como era compreendida a escravidão pelas civilizações:
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Ligada às conquistas militares, muito comum na Antiguidade Clássica, sem uma concepção fixa de raça;
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Por trabalho forçado de cativos tomados em guerras, de caráter próximo à primeira;
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Relacionada a serviços domésticos, militares e agrícolas;
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Africana — empregada em escala industrial de forma sistemática contra a população africana, majoritariamente negra.
O livro apresenta a ideia da escravidão antiga e de como ela foi observada ao longo da colonização europeia no Brasil, na África e nos países que foram colônias de Portugal e Espanha, as potências marítimas dos séculos XV e XVI.
Hoje a escravidão assume outro caráter: o financeiro. Vale aqui ressaltar a etimologia da palavra parcela, originada do francês parcelle, com raízes no latim que significa a partição, a porção dividida, seja em terras ou em quantias. O termo chegou ao português por volta do século XII, via francês medieval.
O parcelamento de dívidas tem registros de mais de três mil anos, gravados em placas de argila das sociedades assírias e babilônicas, e avança até os dias atuais. Em 1973, registrou-se a primeira venda a prazo nos moldes modernos, com a compra de móveis em prestações semanais.
Os 53 anos seguintes foram marcados pela ascensão desse método de pagamento. A parcela não apenas remete à sua etimologia como pode ser entendida, a meu ver, como uma forma de escravidão moderna. A facilidade de se manter em parcelas é inversamente proporcional à liberdade do sujeito.
Aquele que parcela abre mão do futuro em troca da necessidade presente. Coloca sobre si as amarras — não físicas, mas financeiras — do próprio destino. Não se escraviza mais pela tortura ou pela raça, mas pelo desejo de ter aquilo que não se pode pagar à vista.
O modelo econômico deixou de ser o do engenho açucareiro para ser dominado estritamente pelo capital financeiro. A relação de senhorio mudou de mãos: são agora as parcelas que ditam o quanto cada um deve trabalhar para honrar o desejo que já realizou.